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31/03/2017 | 11:45

Ao reviver a infância, educadora resgata paixão pelas artes plásticas

“Por que o nome é milho verde, se a cor dele é amarelo?”. Foi a pergunta que João Miguel, aos cinco anos, fez ao pai, deixando-o desconsertado. De fato, não é simples compreender as crianças, porque requer dos adultos sensibilidade e abertura para o inesperado. Em se tratando de educadores, o desafio é ainda maior, tendo que, muitas vezes, para estabelecer uma interação de qualidade com as crianças, tocar a criança que há dentro de si, para criar uma reconexão com a forma própria deste ser em desenvolvimento.

Foi o que aconteceu com Janete Coelho, gestora da Creche Comunitária Senhora Santana, do município de Camaçari (BA), durante a formação do Paralapracá no eixo Assim se faz Artes. Na ocasião, ao ser convidada a dar um mergulho nas suas experiências de infância, lembrou-se da vila em que vivia, no bairro do Calabar, em Salvador. Vieram à memória imagens da área verde, as árvores frondosas, por onde brincava livremente, e do quadro na parede da sala de casa, que usava para desenhar pessoas que via nos livros de história.

A experiência, que ela compartilha nesta entrevista aqui, foi o ponto de partida para a retomada de uma antiga paixão: a pintura.

Paralapracá: Como as artes visuais surgiram em sua vida?

Janete Coelho: Eu estava sempre com os livros de história da minha irmã, que eu usava como modelo para desenhar no pequeno quadro negro, próximo ao beliche em que dormíamos na sala. Lembro-me que ia à escola com ela desde os 5 anos, pois ela contou à professora que eu já sabia ler e escrever; havia aprendido em casa. Então, fiquei estudando, mesmo sem a idade própria daquela época. Por isso, tive contato cedo com os livros.

Nossa infância foi de muita pobreza. Morávamos em uma casa de três cômodos, em um dos primeiros bairros populares de Salvador, o Calabar. Minha mãe sempre nos estimulou a ler e escrever, pois meus pais vieram do interior com o firme propósito de formar as filhas.

Paralapracá: Quando você conheceu o Paralapracá?

Janete Coelho: No dia 29 de agosto de 2013, teve o primeiro Encontro de Gestores, quando foi apresentado o Paralapracá. A partir daí, comecei a frequentar as formações, tanto de gestores como de coordenadores, pois não havia a figura do coordenador pedagógico, até então, na Creche. Nós tínhamos um quadro de profissionais diferente, e não a estrutura formal de uma escola da Rede Municipal, por exemplo.

Só com a adesão do município ao Paralapracá, que apareceu a figura do coordenador como formador nas creches comunitárias (creches conveniadas à Secretaria de Educação).

Paralapracá: Como foi a vivência no eixo Assim se faz Artes Visuais?

Janete Coelho: Como “artes” sempre me encantou, o eixo despertou um grande interesse em mim. Em uma das formações (em agosto de 2014), houve um trabalho com argila, e pediram que fizéssemos algo que recordasse a infância. Fiz o busto de minha avó com um “coque”, penteado preferido dela devido ao longo cabelo que tinha na época, e que eu sempre admirei pelo jeito de prendê-lo.

Na hora do relato [as coordenadoras compartilham o processo de elaboração], me emocionei muito. A minha avó sempre foi uma referência de mulher batalhadora, pois criou duas filhas sozinha, com muitas dificuldades, sem ao menos saber ler. Trabalhava enrolando charuto, em um armazém de fumo no interior [cidade de Água Fria], junto com minha mãe e minha tia.

Depois de todos os trabalhos serem apreciados, a minha escultura em argila chamou a atenção, pela perspectiva diferente dos demais apresentados. Ao perguntarem quem era a artista, Rita [Margarete, então assessora do Paralapracá em Camaçari] apontou para mim; quando revelei que nunca havia trabalhado com argila, ficaram admirados.

Paralapracá: Antes disso, como você desenvolvia o trabalho de artes visuais na Creche?

Janete Coelho: No início, foi para decorar os ambientes da Creche. Como eu tinha facilidade em desenhar, acabei pegando as tintas guaches que sobravam das atividades de artes das crianças e fazia pinturas para sinalizar locais como biblioteca, salas, sanitários etc. Aqui, na creche, sempre usamos os azulejos da parede como tela para deixar o ambiente mais alegre.

Com o Proinfância [Programa de Formação de Educadores da Infância, da Rede Municipal de Camaçari, que antecedeu o Paralapracá], foi sugerido trabalhar artes com as crianças, a partir de alguns pintores, e nós escolhemos Romero Britto, por suas obras serem bem-coloridas e alegres. Acabei fazendo alguns desenhos e as crianças puderam fazer a releitura e pintar. Depois outros artistas também foram trabalhados.

Paralapracá: O que muda no ensino de artes, a partir do programa?

Janete Coelho: Desde minha chegada à creche [2008], sempre estimulei as educadoras no trabalho de artes com as crianças, por acreditar que através da arte podemos expressar as emoções, despertar novas aprendizagens. E também aguçar a criatividade, ajudar na apreciação de imagens, na estética, a olhar o belo em outra dimensão.

Com a formação, usando os livros do Paralapracá, as educadoras passam a trabalhar com materiais recicláveis, argila, gesso, além da tinta guache e lápis de cor, e a inserir outras técnicas na aprendizagem. Isso favoreceu, principalmente, as educadoras no processo de ensino aprendizagem, além de estimular a criatividade e atenção das crianças.

Paralapracá: E depois de toda essa experiência, qual o significado das artes para sua vida?

Janete Coelho: Comecei a pintar telas após a morte de minha avó, que faleceu aos 98 anos, em março de 2015. Fiz o retrato dela em junho. Daí não parei mais. Virou uma terapia. Passo horas absorvida por esta paixão adormecida por tantos anos, e que, graças ao Paralapracá, trouxe de volta da minha infância. Algo que não consigo explicar como consigo fazer sem ter nenhum curso na área, ou visto alguém fazendo.

As pessoas perguntam e eu respondo que a argila me despertou algo que estava adormecido. Não sei como, nem porque, mas tem feito um bem enorme a mim e a todas as pessoas que olham os quadros, pois pedem que faça um para elas.

Paralapracá

O Paralapracá é uma frente de trabalho do programa Educação Infantil do Instituto C&A, realizado a partir do estabelecimento de alianças com Secretarias Municipais de Educação, selecionadas para participar da iniciativa por meio de edital e implementado em parceria técnica com a Avante – Educação e Mobilização Social.

O programa possui dois âmbitos de atuação: a formação continuada de profissionais de educação infantil e o acesso a materiais de uso pedagógico de qualidade, tanto para crianças quanto para professores. Integraram-se ao primeiro ciclo do programa os municípios de: Jaboatão dos Guararapes (PE), Caucaia (CE), Feira de Santana (BA), Teresina (PI) e Campina Grande (PB). Neste segundo ciclo, que corresponde ao período de 2013 a 2017, cinco municípios integram o projeto: Camaçari (BA), Maceió (AL), Maracanaú (CE), Natal (RN) e Olinda (PE).

Em 2017, o foco do Programa será o fortalecimento da gestão das políticas públicas municipais de Educação Infantil, juntamente com a promoção da sustentabilidade do processo formativo inspirado no Paralapracá nas redes municipais parceiras.

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