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21/10/2016 | 11:02

O lugar da infância: a natureza e a poética da simplicidade nas instituições

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“[…] Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios.” Em O apanhador de desperdícios, o escritor Manoel de Barros trata com respeito as coisas e os seres “desimportantes”, demonstrando como a poética da simplicidade está inscrita naquilo que há e no que pode ser.

Os restos a que se refere também foram aproveitados na Escola Municipal 19 de Setembro, em Olinda (PE), com a aventura das crianças e mais o vizinho, Beto, na limpeza do único coqueiro que há no quintal da instituição. O trabalho se tornou uma rica experiência de aprendizagem, à medida que ele ia retirando as palhas do coqueiro, subindo em seu tronco e mostrando aos meninos que precisava da corda e de alguns utensílios para poder chegar ao alto e tirar o coco. Na hora de jogar as palhas fora, a professora Cely Bastos interveio. “Deixa, deixa, porque eu preciso que eles tenham contato com o que está lá em cima. Eles não sobem no coqueiro. Então, a gente vai ver a textura das folhas, a gente vai manusear, vamos sentir o coco, se a casca é lisa.”

E assim foi feito, as crianças tocaram e manusearam as folhas e o fruto, conhecendo os elementos do coqueiro. Depois, aproveitaram as palhas para a construção de um portal, por onde as crianças passavam, entoando uma série de canções infantis, brincando e experimentando as possibilidades sonoras. Depois, Beto descascou o coco e mostrou às crianças a água que tinha dentro. Um disse que era uma “laminha”, o outro disse que não, mas provaram a deliciosa e fresca água, colocada em uma garrafa e distribuída a todos para experimentarem o sabor.

Quando a experimentação parecia terminar, ainda deu tempo de voltar para a sala, inspirando uma conversa sobre o coqueiro: os elementos, quantas partes têm as folhas, quantos cocos foram tirados, abrindo um leque para outras aprendizagens. “Tem sido bom para a gente esse contato maior com o que é natural porque a gente percebe que não é estático. A partir desse contato, as crianças constroem, criam muito mais, utilizam a imaginação”, disse a professora da instituição, Cely Bastos.

Sensibilidade para educar

Para interagir com as crianças é preciso resgatar o olhar sensível e a capacidade de contemplar o mundo em detalhes, aqueles que aos mais desatentos parecem insignificantes. Para isso, a entrega, o envolvimento e a afetividade precisam estar na linha de frente. Foi o que disseram as educadoras Paula Strozzi e Vanna Levrini, educadoras do Centro Internacional Loris Malaguzzi, da cidade italiana de Reggio Emilia, trazidas ao Brasil (Olinda-PE), em 2014, para dar formação à equipe do programa Paralapracá.

A cidade italiana de Reggio Emilia é referência em todo o mundo por seu projeto de Educação Infantil que inclui, entre outras coisas, colocar a experiência a serviço da reflexão. Reflexão possível pela tematização da prática – quando se relaciona o que é realizado no cotidiano da instituição com referências teóricas referendadas -, um dos princípios do Paralapracá, que tem norteado o trabalho da professora Cely Bastos. “O professor tem que realmente deixar que essa criança aflore nele. Se ele se permite, consegue entender o brincar da criança, como ela aprende. É ela que vai dando a direção, o caminho. Eu me delicio com a construção deles, do que eles falam para mim, e de repente o que me chama atenção é que antes eu não tinha essa escuta, e hoje eu percebo que a escuta me dá muito mais sentido. Antes, a gente não tinha esse olhar tão sensível, e o Paralapracá trouxe isso, ele me deu fundamentação teórica.”

Paralapracá

Desenvolvido em aliança com as secretarias municipais de Educação, o Paralapracá possui dois âmbitos de atuação: a formação continuada de profissionais de Educação Infantil e o acesso a materiais de uso pedagógico de qualidade. A iniciativa, que visa contribuir para a melhoria da qualidade do atendimento às crianças na Educação Infantil, é uma frente do programa Educação Infantil, do Instituto C&A, em parceria técnica com a Avante – Educação e Mobilização Social, atualmente nos municípios de: Camaçari (BA), Maceió (AL), Maracanaú (CE), Natal (RN) e Olinda (PE).

Em 2015, tornou-se metodologia consagrada pelo Guia de Tecnologias Educacionais do Ministério da Educação (MEC), conferindo notório saber à Avante, na formação continuada de profissionais de Educação Infantil.

A partir de 2016, a implementação do projeto Paralapracá passou a priorizar duas frentes de trabalho estratégicas e complementares, visando a sustentabilidade dos princípios do Programa nesses municípios: as ações de fortalecimento da gestão municipal (relativas a formação, currículo e condições de atendimento) e as ações de sustentabilidade dos processos formativos.

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